Artigo: Travessia

08/01/2018

O ano de 2018 terá importância estratégica para o Brasil, porque nos oferecerá a oportunidade de iniciar uma trajetória de progresso, depois da mais grave recessão de todos os tempos, resultante de equívocos na condução da economia, conjugados com crises na política e o descobrimento de casos de corrupção sem paralelo no mundo, até onde se sabe. Por isso, o primeiro passo para fazermos travessia segura a uma nova realidade é entender que essas desventuras estão intrinsecamente ligadas, numa danosa relação de causa-efeito.

Em condições normais, as eleições, em especial de presidente da República, governadores e parlamentos federal e estaduais, já são geradoras de cenários voláteis. Com as feridas da crise ainda abertas, o pleito suscita mais especulações e instabilidade, podendo até mesmo comprometer a retomada do crescimento do PIB, tenuamente iniciada em 2017.

Assim, será necessária muita firmeza de propósitos, foco e empenho para trocarmos o status quo de nossa história com o calendário andando. O grande desafio consiste em converter a política no fator basilar de fomento e sustentação do desenvolvimento. Nesse contexto, repudiando qualquer possibilidade que não a via democrática e o caráter soberano de eleições livres e diretas, a sabedoria dos brasileiros no exercício do voto será absolutamente decisiva para delinear nosso futuro.

Os desafios nacionais estão colocados com clareza à nossa frente: a economia precisa crescer, ao menos, entre quatro e cinco por cento ao ano e a renda per capita, dobrar em menos de uma década e meia; é imprescindível, depois da bem-vinda revisão das leis trabalhistas, dar continuidade às reformas, fazendo avançar a previdenciária e concretizando a tributária, bem como a desburocratização, saneamento fiscal, modernização e melhoria da produtividade do Estado, com mais segurança jurídica. Esses são os fatores condicionantes mínimos, mas que representam imenso trabalho, para que possamos ascender da condição de país de renda média, à qual não podemos nos resignar, à de renda alta.

O sucesso na consecução dessas metas dependerá de modo direto do próximo presidente da República, senadores e deputados federais e, em proporção também relevante, dos executivos e parlamentares estaduais, muitas vezes esquecidos pela sociedade quanto às suas responsabilidades para o desenvolvimento nacional. Os políticos não virão de Marte para ocupar os cargos... Serão nomeados pelo voto dos cidadãos! Portanto, os eleitores serão os principais responsáveis pelos destinos do País e a concretização ou não de nossa agenda de transformação socioeconômica.

Deve-se levar em conta que as políticas públicas e a gestão do Estado nos quatro anos posteriores a 2018 não terão efeito apenas nesse período. Repercutirão por muito tempo. Assim, escolhas equivocadas terão prejudiciais e prolongadas consequências, agravadas pelo fato de se seguirem a uma conjuntura de crise ainda não totalmente debelada. Construir é difícil. Destruir é fácil, como se percebe na sequência de decisões erradas que, ao longo de anos, têm corroído o imenso potencial de crescimento econômico do Brasil. Temos todos os requisitos para ser ricos, mas a expansão de nosso PIB é pífia e perdemos cada vez mais espaços no cenário global.

Portanto, no 33º ano da democracia reconquistada em 1985 e no 30º aniversário da Constituição de 1988, que transcorrerão em 2018, não temos mais o direito de cair no canto da sereia e de nos iludir com o populismo, seja qual for sua bandeira de fundo. Como cantam Fernando Brant e Milton Nascimento na sua antológica Travessia  — “Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver” —, é hora de encarar de frente a realidade e fazer com que o Brasil, filho pródigo de nossa consciência, ao caminho do desenvolvimento torne!

 

*Fernando Valente Pimentel é presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).





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