A tecnologia têxtil e de confecção entra em campo na Copa do Mundo

19/06/2026

Foto: Divulgação

Os avanços da preparação física, da fisiologia e dos métodos de treinamento contribuem de modo significativo para a melhoria do desempenho dos atletas em todas as modalidades esportivas. No entanto, há um fator que também ajuda nesse processo: os materiais dos uniformes. Desde 1958, quando a Seleção Brasileira de Futebol ganhou sua primeira Copa do Mundo até o torneio de 2026, o avanço da tecnologia têxtil e de confecção tem evoluído a cada ano, ajudando os jogadores a melhorarem sua performance.

“É interessante olhar sob o aspecto da biomecânica. O gesto esportivo é mais facilitado pelos tecidos que proporcionam a possibilidade de maior liberdade de movimento. A composição têxtil atual tem essa característica mais elástica. Com isso, o atleta tem uma liberdade grande de movimento, o que ajuda bastante no gesto esportivo”, observa Diego Leite de Barros, educador físico e fisiologista do exercício do HCor (Hospital do Coração).

“De fato, o uniforme tem expressivos efeitos no desempenho dos times de futebol e, portanto, das seleções que estarão em campo na Copa de 2026, no Canadá, Estados Unidos e México”, ressalta Fernando Valente Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Ele explica que “o notável avanço dos equipamentos industriais, materiais, fios, fibras, tecidos e confecção resultaram em trajes de competição que reduzem a resistência do ar e da água nas disputas do atletismo e da natação e nos jogos de futebol, basquete, vôlei e outras modalidades”.

O fisiologista Diego Leite de Barros concorda. “Os tecidos atuais têm características diferenciadas. O primeiro e mais importante tem a ver com termorregulação e com a capacidade do tecido auxiliar na manutenção da temperatura corporal, atenuando a fadiga térmica. Ou seja, esses tecidos ajudam a manter essa temperatura estável por meio do controle do suor. O atleta consegue manter a temperatura estável e sofrer menos com as repercussões da hipertermia, que é algo que vai estar muito presente nesta Copa, principalmente em alguns jogos que vão acontecer em situações de calor extremo”, explica.

Hoje, os trajes para a prática de esportes são mais leves, não retêm o suor, não irritam a pele, garantem plena ventilação, aumentam a microcirculação sanguínea, retardam a fadiga muscular e aceleram a recuperação. Podem até mesmo monitorar eletronicamente a performance.

Exemplo dessa evolução é o uniforme do futebol. Até o início dos anos 80, o material utilizado retinha o suor. Um jogador perde de dois a três quilos durante o jogo. Metade disso ficava na camisa. Aí, veio outro tipo de fibra, utilizado pela primeira vez pela Seleção Brasileira na Copa do México, em 1986. Porém, o suor ainda permanecia retido, agregando peso e esfriando o corpo do atleta. “Tecidos anteriores não tinham essa capacidade diferenciada. Por exemplo, o algodão não fazia a troca térmica. O suor era absorvido e mantinha aquela temperatura elevada”, lembra Diego.

A partir dos anos 90, surgiram novos materiais, fibras e tecnologias de acabamento e fabricação. Tecidos inteligentes absorvem o suor e propiciam rápida evaporação. Depois do primeiro modelo desse tipo de camisa, a utilizada na Copa do Mundo de 2022, no Catar, já era 13% mais leve e tinha passagem de ar 7% mais efetiva.

Agora, em 2026, mais uma inovação entra em campo. A Seleção Brasileira de Futebol utilizará a tecnologia Aero-FIT, desenvolvida pela Nike, que promete elevar o padrão de desempenho dos uniformes esportivos. O uniforme foi projetado para otimizar o fluxo de ar e manter a temperatura corporal dos atletas sob controle, especialmente em condições de calor intenso, fator decisivo em competições de alto rendimento.

A estreia da Aero-FIT acontecerá justamente na Copa do Mundo FIFA de 2026, quando será incorporada às camisas das seleções patrocinadas pela marca. A inovação deve, posteriormente, ser expandida para outras linhas esportivas, indicando uma tendência clara de difusão tecnológica do alto rendimento para o consumo de massa. “Outro ponto, são alguns tecidos com maior compressão. Ou seja, hoje as camisetas não são mais tão largas. Têm muitas vezes esse aspecto de compressão maior. Além disso, a própria meia também favorece essa compressão, ajudando no retorno venoso, o que facilita a circulação sanguínea, permitindo uma recuperação muscular acelerada”, salienta Diego.

“Todos os avanços dos fios, tecidos e processos produtivos dos materiais esportivos desde 1958 também beneficiam os consumidores, pois são aplicados na produção regular do vestuário”, frisa Pimentel. Ele observa, ainda, que a evolução continua. “Estão em curso a Manufatura Avançada e o desenvolvimento de novas fibras e acabamentos, e o setor têxtil e de confecção brasileiro é um dos protagonistas dessa evolução sistêmica”.

Essa transformação citada pelo diretor da Abit já chegou às araras do varejo. Peças com proteção solar incorporada ao tecido, roupas com sensores capazes de interagir com dispositivos móveis e até tecidos produzidos com materiais avançados, como o grafeno, que alteram características conforme o ambiente, deixaram de ser conceito para ganhar escala comercial.

Essas inovações fazem parte do universo dos chamados wearables, ou tecnologias vestíveis, que reposicionam o papel da moda. “Mais do que estética, as roupas passam a desempenhar funções ativas no cotidiano, integrando conforto, saúde, conectividade e desempenho”, conclui Pimentel