Artigo: a Copa do Mundo que o Brasil precisa vencer

06/07/2018

Com a Copa do Mundo da Rússia, em paralelo à expectativa de conquistar o hexacampeonato, o Brasil vivencia um complexo dilema no contexto de outra e mais importante competição internacional: a ampliação do fluxo de comércio de bens, serviços e investimentos com outras nações. É praticamente consensual a necessidade de o País integrar-se de modo mais profundo à cadeia global de valor. Isso não se discute. Entretanto, é crucial estabelecer uma agenda realista e responsável para a concretização desse processo.

Assim como a Seleção Brasileira de Futebol precisa estar de fato preparada para disputar a Copa do Mundo, com uma defesa sólida, meio campo equilibrado e ataque eficiente, nossa economia não pode concorrer de igual para igual no cenário internacional sem o encaminhamento prévio dos problemas que afetam sua competitividade. O risco de tomarmos outro "sete a um" é imenso no enfrentamento de peito aberto do comércio exterior, em especial no presente cenário de recrudescimento do protecionismo, protagonizado pelos Estados Unidos e a China.

Porém, independentemente da conjuntura instável do comércio exterior, o Brasil precisa desenvolver fundamentos eficazes para ampliar a abertura de seus portos, sem o risco de tomar goleadas na balança comercial dos produtos manufaturados, da desindustrialização e do desemprego, inclusive sofrendo contra-ataques dos pretensos ganhos que, em tese, seriam decorrentes da abertura, caso esta seja abrupta e sem planejamento.

Assim, é preciso estabelecer forma e timing adequados para a necessária maior integração do País ao mundo. Temos de construir nossa visão de futuro e irmos realizando movimentos os mais concatenados possíveis entre ganhos de competitividade e produtividade sistêmica e aumento da abertura com redução de tarifas. Não fazem sentido, a nosso ver, aberturas unilaterais, como proposto por algumas correntes de pensamento e achar que um novo e melhor equilíbrio dar-se-á ao final do processo. Será muito mais produtivo para o País realizar o processo de maior integração global por meio de acordos, tal como estamos fazendo nesse momento com a União Europeia, além de outras negociações em curso (EFTA, Canadá e Japão).

Não há dúvidas de que, se fizermos a abertura dentro de um cronograma adequado de ganhos de produtividade e competitividade, poderemos desfrutar com tranquilidade e crescimento econômico os benefícios advindos dessa liberalização, gerando assim mais bem-estar para a sociedade brasileira.

Tudo isso, porém, deve, necessariamente, ser precedido por uma grande lição de casa, no mínimo, nas áreas tributária, de crédito, cambial, educacional e de infraestrutura. É lamentável constatar, mas a estrutura de nossa economia é um convite ao "ataque" e à "artilharia" dos nossos concorrentes internacionais: carga tributária, inclusive sobre os investimentos, dentre as mais elevadas do mundo; juros reais permanentemente entre os mais altos do Planeta; câmbio invariavelmente desfavorável às exportações; educação básica precária e acesso restrito ao Ensino Superior de excelência, que conspiram contra a formação de profissionais de alta produtividade; e infraestrutura deficiente e onerosa para os custos da produção. Certamente, não será possível resolver todas as questões críticas que nos afligem para só então avançarmos mais na integração com o mundo. É preciso, porém, termos o caminho traçado e o veículo em movimento na direção do que almejamos.

Infelizmente, a não realização de reformas estruturais, como a tributária e a previdenciária, a insistência com políticas econômicas que não primam pelo necessário equilíbrio fiscal, o crônico descaso com a educação, transportes muito caros e ineficazes e outros ônus do "custo Brasil", como a burocracia e a insegurança jurídica, são fatores que não permitem abertura imediata mais ampla de nosso comércio. Uma redução repentina de nossa taxa média dos impostos de importação significaria um golpe duríssimo e quase letal em nossa indústria, que é bem estruturada e tem uma história concreta de competitividade intramuros, apesar do muito que ainda teremos de fazer para estar pari passu com a 4ª Revolução Industrial em curso.

Não é prudente queimar etapas no processo de desenvolvimento, adotando-se medidas fáceis para solucionar algo muito complexo. No tocante ao comércio exterior, temos hoje o grau de abertura que o nível de competitividade de nossa economia permite. Nesse caso, colocar a zaga na frente da linha atacante e convidar os adversários para o jogo é pedir, literalmente, para tomar um gol atrás do outro. Se a experiência já foi muito amarga na fatídica partida da Seleção de Futebol contra a Alemanha em 2014, o que dizer de uma derrota na Copa do Mundo do comércio global, que ceifaria empresas, empregos e todas as nossas possibilidades de crescer de modo seguro, sustentável e em patamar suficiente para nos converter em país de renda alta?

*Fernando Valente Pimentel é o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).





Área do Associado
Esqueci minha senha