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Em Pauta
               
E m   P a u t a
 

Setor têxtil: exportações e mercado interno

Paulo Skaf*

Motivada pela variação na cotação do dólar e pela redução da taxa Selic, toma corpo a discussão sobre a influência da taxa de câmbio na competitividade das exportações brasileiras e da taxa de juros no desenvolvimento da atividade industrial.

Não temos expectativas inflacionárias, logo não há motivo para os juros absurdos que só engessam a economia e paralisam a produção. O nível da atividade industrial está extremamente baixo, com forte retração de produção, renda e emprego. É preciso mudar este quadro urgentemente. É necessária uma mudança na política monetária brasileira e que a meta seja a recuperação do nível de atividade industrial. Precisamos agora de uma trajetória de cortes decisiva na taxa básica, para que ela chegue ao final do ano entre e 16% ou 17%.

Desde a mudança da política cambial em 1999, com o fim da paridade entre o real e o dólar, e a conseqüente alta da moeda norte-americana, as vendas externas do país deram um salto. E, a cada ano, vêm aumentando. Em 2002, as exportações brasileiras atingiram US$ 60,361 bilhões, um crescimento de 3,7% sobre as vendas de 2001, que somaram US$ 58,223 bilhões.

Coube à indústria têxtil brasileira, naquele ano, cifras de exportação na ordem de US$ 1,3 bilhão. Para 2003, as previsões são ainda mais positivas. No último mês de março, por exemplo, as exportações chegaram a US$ 129 milhões, um aumento de 28,8% em relação ao mesmo mês no ano passado. No primeiro trimestre deste ano atingimos US$ 350 milhões, 22% a mais que igual período no ano anterior. A projeção de superávit da balança comercial é de US$ 350 milhões para 2003. Com estes resultados, acreditamos cumprir a meta de atingir, até 2007, US$ 4 bilhões em exportações. A questão é que somente a política cambial não será suficiente para atingir esse desempenho. Será preciso criar linhas de financiamento às exportações, investimento em pesquisa e desenvolvimento e busca de eficiência administrativa.

Esta afirmação está respaldada na experiência adquirida em um passado muito recente da história da indústria têxtil. No início da década de 90, com a abertura da economia iniciada no governo Collor, a indústria de confecção e produtos têxteis passou por sérios percalços, em função principalmente da concorrência externa. Muitas empresas simplesmente desapareceram e as demais foram obrigadas à adaptação ao novo formato do mercado, fazendo uma profunda reestruturação para buscar total modernização. Uma década depois, a indústria têxtil é hoje um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira. Tornou-se estratégica dentro do processo de retomada de crescimento do País por ser capaz de produzir tecnologia própria, pesquisando novos tecidos e fios, desenvolver produtos originais e gerar muitos empregos. Hoje, fazem parte da cadeia têxtil 30 mil empresas, da produção de fios à confecção, que geram 1,5 milhão de empregos diretos (100 mil nos últimos quatro anos).

A indústria têxtil, portanto, tem feito a sua parte, modernizando-se e tornando-se competitiva. A continuidade deste sucesso, no entanto, necessita de que o esforço e a obstinação de todo um setor e facilidades, até certo ponto, oferecidas pela política cambial. E isso significa, em primeiro lugar, a abertura de linhas de crédito às vendas externas para os exportadores, responsáveis por um fluxo respeitável de divisas para o País. É preciso defender a exportação, manter um nível cambial que estimule os exportadores e garantir irrigação nos financiamentos.

É necessário também partir para uma política, em médio prazo, de juros mais baixos e de incentivo à produção tecnológica. Apesar de enfrentar os problemas estruturais representados pela onerosa Previdência Social e pela absurda carga tributária que recai sobre a produção brasileira – problemas estes que começam a ser enfrentados pelo atual governo – a indústria têxtil brasileira tem capacidade para se inserir no mercado internacional. Basta que lhe dêem condições isonômicas para enfrentar seus concorrentes.

*Presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT).


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